“A gente improvisava com o que tinha”, relatam presas sobre a falta de absorventes

O tema da dignidade menstrual em presídios femininos brasileiros é, sem dúvida, uma questão de saúde pública, ética e direitos humanos. Embora o debate sobre o acesso a produtos menstruais tenha se intensificado na sociedade, a realidade enfrentada por mulheres encarceradas ainda é alarmante. Este artigo busca explorar a grave falta de absorventes dentro das unidades prisionais femininas, descrevendo a rotina de improvisos enfrentados por essas mulheres e a condição desumana que muitas vezes permeia seu cotidiano.

A gente improvisava com o que tinha, relatam presas sobre falta de absorventes

Nas unidades prisionais femininas, a realidade pode ser particularmente dura e desprovida de cuidados essenciais, como o acesso a produtos de higiene menstrual. O relato de mulheres privadas de liberdade revela a gravidade dessa situação. Muitas delas afirmam que, ao longo do mês, precisam recorrer a alternativas precárias, como pedaços de colchão, panos velhos e restos de tecido, devido à escassez de absorventes. Isso não é apenas uma questão de comodidade, mas um desafio que afeta diretamente a saúde, a dignidade e a autoestima das mulheres.

Conforme levantado por organizações que monitoram o sistema prisional, os estados brasileiros gastam menos de R$ 3 milhões por ano na compra de absorventes para essas unidades. É um valor irrisório frente ao orçamento geral destinado ao sistema carcerário, que gira em torno de bilhões de reais anualmente. O problema se torna ainda mais gritante quando se considera que a distribuição dos produtos não segue um padrão nacional — cada estado estabelece suas próprias diretrizes, que frequentemente não são implementadas de forma adequada.

Relatos de ex-detentas e especialistas revelam que a quantidade de absorventes fornecida é frequentemente insuficiente para cobrir um ciclo menstrual completo, especialmente para aquelas que não recebem visitas e, portanto, não têm acesso a itens adicionais de higiene. Essa carência leva muitas mulheres a enfrentarem constrangimentos em sua rotina diurna, fazendo escolhas difíceis entre usar os poucos absorventes disponíveis em dias de maior fluxo ou improvisar nos demais, o que afeta sua saúde mental e emocional.

Os impactos físicos e psicológicos dessa situação são profundos. Ao falar sobre suas experiências, muitas mulheres expressam o constrangimento constante que sentem ao ter que lidar com a falta de produtos adequados. Algumas relatam que se isolam em seus celas, evitando áreas comuns, como o refeitório, por medo de que suas situações pessoais se tornem visíveis para outras. Essa necessidade de acomodação é um reflexo do estigma e da discriminação que ainda permeiam a sociedade em relação às questões menstruais.

Por outro lado, especialistas no campo da saúde alertam que o acesso inadequado a produtos menstruais não só afeta a saúde mental, mas também aumenta o risco de infecções ginecológicas e outros problemas de saúde que são comuns em ambientes prisionais. A situação se agrava ainda mais em períodos de restrição de água, quando manter a higiene básica se transforma em um verdadeiro desafio.

Custo e dignidade menstrual no sistema prisional

Investigações realizadas por organizações de defesa dos direitos das mulheres encarceradas indicam que o custo necessário para garantir o fornecimento adequado de absorventes é bastante baixo, se comparado ao orçamento total do sistema prisional. De acordo com estimativas, assegurar esse direito básico exigiria apenas uma fração mínima dos recursos públicos, que poderiam ter um impacto direto na saúde e dignidade das detentas. A resistência à proposição de leis que buscam garantir a entrega regular de absorventes nas unidades prisionais é frequentemente justificada por argumentos relacionados a gastos públicos, apesar dos dados mostrarem que o investimento seria negligenciável.

Participantes de projetos sociais que trabalham em contato com mulheres encarceradas não apenas relatam essa falta de recursos, mas também enfatizam a real necessidade de mudar a narrativa sobre a menstruação dentro das prisões. Para muitos defensores dos direitos humanos, lutar pela dignidade menstrual no sistema prisional não é uma questão de privilégio, mas sim uma necessidade básica que deve ser garantida para respeitar a saúde e os direitos fundamentais dessas mulheres.

O imenso desafio das propostas legislativas

Embora haja um movimento crescente em direção à elaboração de propostas legislativas voltadas para a dignidade menstrual nas prisões, esses esforços frequentemente encontram barreiras. No cenário político, os argumentos a favor da restrição a gastos públicos dominam o discurso, levando à procrastinação em torno de iniciativas que poderiam trazer mudanças significativas. Enquanto isso, as mulheres encarceradas continuam a viver uma realidade invisível e desagradável, marcada pela falta de cuidado essencial.

Essas dificuldades relacionadas ao fornecimento de absorventes, no entanto, não têm ignorado a garra e a resistência das mulheres que enfrentam essa dura realidade. Organizações não governamentais, ativistas e até mesmo ex-detentas têm se unido na luta para proliferar a conscientização sobre essa problemática, buscando pressionar legisladores e mobilizar a sociedade civil para que olhem além dos muros prisionais.

A questão da dignidade menstrual vai muito além do simples fornecimento de produtos; trata-se de restaurar a dignidade e a condição humana das mulheres que, por circunstâncias diversas, encontram-se no sistema prisional. O reconhecimento da menstruação como uma questão importante de saúde pública é fundamental para que possamos garantir um tratamento igualitário e justo a todas as mulheres, independentemente de sua situação.

Perguntas frequentes

Como as mulheres em prisões improvisam durante a menstruação?
As mulheres frequentemente recorrem a alternativas como pedaços de colchão, panos velhos e restos de tecido devido à escassez de absorventes.

Qual é o gasto anual dos estados brasileiros em absorventes para presídios femininos?
Os estados brasileiros gastam menos de R$ 3 milhões anualmente na compra de absorventes para unidades femininas.

O que acontece com a saúde das mulheres que não têm acesso a absorventes adequados?
A falta de acesso a produtos menstruais adequados pode aumentar o risco de infecções ginecológicas, além de afetar a saúde mental e emocional das detentas.

Qual é o impacto psicológico da falta de absorventes?
Muitas mulheres se sentem constrangidas e optam por se isolar para evitar que suas situações se tornem visíveis, o que afeta seu bem-estar emocional.

Quais são os obstáculos para propostas legislativas que garantem o fornecimento de absorventes?
Resistências políticas e argumentos sobre gastos públicos frequentemente atrasam a aprovação de leis que buscam assegurar o direito ao acesso a produtos menstruais.

Como as organizações sociais estão atuando na defesa dos direitos das mulheres presas?
Entidades não governamentais e ativistas estão lutando para aumentar a conscientização e pressionar legisladores a garantir acesso adequado a produtos de higiene menstrual.

Refletindo sobre a realidade

A realidade das mulheres encarceradas que enfrentam a falta de absorventes nos presídios é uma questão que exige a atenção não apenas das autoridades governamentais, mas também de todos nós como sociedade. A luta por dignidade menstrual transcende muros e limitações e deve ser entendida como uma questão de saúde pública e direitos humanos.

Frente a um cenário que ainda se mostra obscuro e complexo, é fundamental que continuemos a discutir e a propor soluções que visem garantir o respeito à dignidade de todas as mulheres, independentemente de suas circunstâncias. O acesso a produtos de higiene menstrual deve ser visto como um direito básico, e toda a sociedade tem um papel vital nesse processo de transformação e sensibilização.

Diante dessa realidade, a esperança é que um dia possamos olhar para a questão da dignidade menstrual como um desafio superado, garantindo que todas as mulheres, em qualquer situação, possam viver com dignidade e respeito. Que a luta das mulheres carcerárias por seus direitos inspire mudanças reais e significativas em nossa sociedade, promovendo um diálogo inclusivo e humano sobre temas que têm o poder de impactar a vida de tantas pessoas.